sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Maconha é pesquisada para uso medicinal em Ribeirão Preto


Independentemente das polêmicas acerca de sua descriminalização, a planta da maconha, chamada cientificamente Cannabis sativa, é utilizada em pesquisas para fins medicinais no Brasil desde a década de 1970. Estas pesquisas já comprovaram seu poder analgésico, ansiolítico e antidepressivo, mas, devido à proibição de cultivo no País, os pesquisadores têm de lançar mão dos mais trabalhosos artifícios para obter as substâncias medicinais da planta. Um grupo de pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) estuda o canabidiol, um dos derivados da Cannabis, que tem mais de 80 substâncias conhecidas entre pesquisadores. O professor Antonio Waldo Zuardi foi um dos idealizadores do grupo de estudo e também um dos pioneiros na pesquisa da planta e seus compostos no Brasil. Ele iniciou seus trabalhos científicos no fim da década de 1970, época em que fez doutorado na Escola Paulista de Medicina (Unifesp) e participou de um grupo que pesquisava a interação do Delta 9 – THC e o canabidiol (CBD).

O professor Francisco Silveira Guimarães, da FMRP-USP, explica que, apesar dos mais de 40 anos de estudo do tema no País, para conseguir o composto já separado, os pesquisadores precisam importá-lo da Alemanha e do Reino Unido, onde os testes com a planta e seu plantio são legalizados. “Mas para conseguir a entrada do composto demanda um tempo, o que pode atrasar a pesquisa por longos meses”. Além das dificuldades da importação do composto, pesquisadores ouvidos pela Tribuna Impressa garantem que ainda há muito preconceito contra esse tipo de estudo, mesmo entre a classe científica. “Mas isso a própria morfina já sofreu e agora é um medicamento muito utilizado.

A nossa parte é pesquisar e apontar para quais finalidades serve”, defende Guimarães.Segundo ele pesquisas mostram que o canabidiol auxilia a conter níveis elevados de stress. “Verificamos que, com a droga, camundongos expostos ao stress ficavam mais tranquilos quando faziam atividades estressantes. Estamos animados com os resultados”, diz.

O grande volume de conhecimento gerado por estudos desenvolvidos pelo grupo da USP e em outros países, porém, tem contribuído para o esclarecimento de questões polêmicas relacionadas à Cannabis, como seus efeitos sobre alterações cognitivas e seu potencial de produzir dependência e sintomas de abstinência.

Extração

Os canabinoides, substâncias da maconha, ficam armazenados em glândulas na extremidade de pelos secretores que recobrem as flores e folhas da Cannabis. A disponibilidade em forma pura dos componentes da planta estimulou o interesse pelo estudo da planta, com o número de publicações atingindo um primeiro pico em meados dos anos 1970.

Remédio trata pacientes com esclerose

Produzido pela GW Pharmaceuticals e comercializado pela Bayer Healthcare, o medicamento Sativex, à base de Cannabis sativa, é indicado para o tratamento de esclerose múltipla e aguarda aprovação dos órgãos reguladores nacionais. Por enquanto, está disponível no Canadá, Alemanha, Dinamarca, Austrália e países da Ásia e da África. Em seu site, a fabricante a garante que o medicamento não vicia, não gera dependência química e nunca provocou overdose.

A esclerose múltipla é uma patologia sob condição neurológica degenerativa. Está associada também a sintomas de depressão e sinais de deficiência.

O medicamento é disponibilizado em spray sublingual e pode apresentar efeitos colaterais como boca seca e tonturas, provenientes do tetra-hidrocanabinol (THC). Além desse, existe outro remédio com componentes da Cannabis, em forma de cápsulas e sprays nasais, para combater efeitos de fraqueza, falta de apetite, vômito e náuseas provocados por quimioterapia.

Uma curiosidade: o local da plantação não é divulgado por questões de segurança.

Registros da planta são de antes da Era Cristã

Há indicações do uso da maconha na China antes da Era Cristã para tratamento de inúmeras condições médicas, como constipação intestinal, dores, malária, expectoração, epilepsia e tuberculose.

Na Índia, há descrições de seu uso mais de mil anos antes de Cristo, como hipnótico e tranquilizante no tratamento de ansiedade, mania e histeria. Também os assírios inalavam a Cannabis sativa para melhorar sintomas de depressão.

Posteriormente, já no início do século 20, extratos de Cannabis chegaram a ser comercializados para tratamento de transtornos mentais, principalmente como sedativos e hipnóticos.

Entretanto, após a terceira década do último século, houve o declínio no uso da droga para fins médicos.

Isso ocorreu por diversos motivos relacionados ao fato de que, na época, os princípios ativos da Cannabis ainda não haviam sido isolados e os extratos variavam de potência e composição, podendo gerar efeitos inconsistentes e levar a diversas reações indesejáveis.

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